terça-feira

Quando um homem ama uma mulher

O que acontece quando um homem se apaixona? Em que momento ele se sente entregue a uma mulher? 'O amor quebra os homens ao meio', diz Luiz Cushnir. Segundo o psiquiatra, especialista no universo masculino, o homem vive a paixão de uma forma mais arrebatadora do que a mulher. 'Ele experimenta uma mistura de felicidade com medo de falhar, já que a conquista ainda é vista como um teste de competência.' Quatro homens de gerações diferentes revelam, aqui, como vivem esse delicioso tormento.

O clique
Mário Luiz,jornalista e empresário,  45 anos, Divórciado a 9 anos , Relação estavél a 3 anos.
'Homem apaixonado dá bandeira: fica vermelho, começa a falar demais ou pára de falar completamente. Eu sempre me espanto quando me apaixono. É estranho. Sinto o corpo gelar, perco o prumo. Gostaria de ter autocontrole, mas ainda não consegui. Todas as vezes em que me senti assim, acabei me envolvendo. Agora estou apaixonado e não foi diferente. Não sei dizer exatamente o que provoca essa reação, se é o jeito dela, o cheiro, uma parte do corpo... Só sei que há uma química que faz disparar esse mecanismo em mim. E parece que nada é mais importante do que ter aquela mulher. Com essa decisão tomada, lá se vão meus dias de sossego. Fico fazendo planos, imaginando como seria a minha vida com ela. Eu já durmo pouco. Apaixonado, menos ainda. Costumo ficar a noite toda olhando para o céu, da minha janela. E como muito chocolate, bala, todo tipo de doce.'

Leandro de Campos, coreógrafo e empresário, 33 anos, casado há 5, um filho
'Nada me atrai mais do que o contato com o corpo da mulher durante uma dança. Os movimentos envolvem, dá para sentir o perfume de perto. Quase todas as paixões que tive começaram assim. Num primeiro momento, eu fico meio ridículo. Dá um curto-circuito cerebral, troco as palavras quando vou falar com ela... É o sinal mais claro de que estou interessado. Curiosamente, a mulher da minha vida, com quem me casei, me fisgou em uma situação diferente. Ela apareceu no meu campo de visão enquanto eu dançava em um palco. Quando vi aquela morena se movendo, falando, sorrindo, tive um sobressalto. Não sei se foi o cabelo comprido, misturado com o sorriso. Não chegamos a ser apresentados. Ela tinha namorado. A gente se cruzou em outros eventos, por causa de um amigo em comum. Dois anos depois, ela estava sozinha e apareceu para fazer aula de dança comigo. Reconheci aquele jeito de olhar, de jogar os cabelos...'

David O'Keefe, empresário, 40 anos, casado há 8, três filhos
'O homem se apaixona de forma mais violenta, mais total. Estar apaixonado é uma espécie de loucura, a gente sai um pouco do mundo racional, prático, e mergulha em um poço de sentimentos. Um dos sintomas é que o homem pára de falar dessa mulher com os amigos. É como se ela fosse um segredo íntimo. Não dá para negar que acontece um estalo quando a gente vê um corpo bonito, uma boca sedutora. Mas, agora, mais maduro, posso afirmar: mulheres inteligentes e bem humoradas são incríveis. Eu nunca resisti às espirituosas. Tanto que me apaixonei pela minha mulher apenas trocando e-mails, sem saber como ela era fisicamente. Sou americano, morava em Nova York e tinha criado um site para me comunicar com gente do mundo todo. Ela apareceu por lá, começamos a conversar, e nunca mais paramos. Quando nos encontramos pessoalmente, foi só para confirmar o que eu já sabia: ela era a mulher da minha vida.'
'Ao vê-la, sinto o corpo gelar, perco
o prumo' -
Andrei
A conquista
Andrei G. Orzakauskas, publicitário, 23 anos, solteiro'A mulher é mais sonhadora. Coloca todas as fichas no relacionamento. O homem pensa primeiro no sexo, depois vai se entregando. Não é fácil para mim confessar o que estou sentindo. Na fase da conquista, faço questão de manter um certo mistério, porque tem mulher que sabe se aproveitar de um homem apaixonado. Se bobear, quer mudar o jeito dele se vestir, quer proibi-lo de sair com os amigos. Procuro demonstrar o que sinto sem falar 'eu te amo'. Tento passar a emoção mais pelo olhar do que pelas palavras.'

Leandro 'Logo de cara, minha vontade é tocar, beijar, mas me contenho. Vou tentando mostrar o que tenho de melhor, até sentir que sou correspondido. Como sei que meu sorriso faz sucesso, fico com ele ligado o tempo todo. E coloco na cabeça que ela vai ser minha, não aceito perder. Foi assim com minha mulher. Eu a levei para dançar. Quando tocou um bolero, falei: 'Ao dançar bolero com um homem, você descobre, finalmente, se está apaixonada. Porque, se não estiver, não agüenta mais ficar ao lado dele. É uma dança muito íntima'. Dançamos, e ela continuou ao meu lado...'

David 'A conquista é dura para o homem. É um período de insegurança. A gente quer impressionar, parecer viril, e ao mesmo tempo ser natural. Lembro que eu chegava a tremer na frente da minha mulher. Ela percebeu e assumi: 'Estou nervoso mesmo!'. Ela riu e procurou me deixar mais à vontade. Tudo ficou mais delicioso a partir daí, porque pude tirar a 'máscara': sim, eu estava morrendo de medo de não corresponder ao que ela esperava.'


' Deveria ser feriado um dia depois do primeiro encontro ' - David
O primeiro encontro
 
Mário,
'Fico ansioso ao extremo. Até roupa nova eu compro. Sigo meu estilo básico: calça, camiseta, tênis, mas escolho um acessório diferente, acrescento um cinto ou uma corrente. Ah, tem o perfume, que é importante. Adoro me perfumar para uma mulher e sempre espero que ela faça o mesmo para mim.'

Leandro 'Acho uma delícia a preparação. Cuido de cada detalhe, ensaio antes o que vou falar. Sou vaidoso. Nesse dia, quero estar com o cabelo e a roupa perfeitos. A cueca também é escolhida a dedo: preta ou branca, bem colada. Em vez de gotas de perfume no pulso, tomo um banho de perfume e penso: 'Vai ter que dar certo!'.'

David 'No meu caso, como a gente se falava apenas por telefone e-mail,o primeiro encontro foi ainda mais aguardado
. Eu tinha mandado umas fotos minhas para ela, mas ela não.
Eu tinha apenas a sua descrição física: clara, de cabelos
curtos e olhos escuros. Ensaiei as frases certas, coloquei
um belo terno grafite, camisa branca, gravata de seda.
Ela achou que era apenas minha roupa de trabalho, mas
eu sabia que era um traje que ficava perfeito em mim.
Consultei meus amigos e selecionei os melhores
restaurantes de Nova York, onde morava,
para levá-la para jantar. Nos encontramos na happy-hour
e a noite foi longe.'
O jantar a dois
Andrei
'Se pudesse, pulava essa parte. Sou péssimo para
manejar talheres, dobrar folhas de alface, comer espaguete.
É tudo tão mais fácil com um hambúrguer... Como sei que
 não vou conseguir mesmo escolher o melhor restaurante ou
prato, deixo isso para ela. Só não peço algo que não conheço,
nem peixe, para não ficar brigando com os talheres. Imagine, já
estou ansioso, e ainda vou me engasgar com uma espinha?
Fico impaciente, aguardando os primeiros dez, 15 minutos,
para ver se tudo fica mais natural e eu possa comer tranqüilo,
sem medo de cometer alguma gafe.'

Leandro 'O jantar é a melhor oportunidade para o homem
 brilhar, mostrar que sabe agradar. E uma bela preliminar para
o sexo também. A gente se conhece, troca olhares... Eu aposto
muito nessa situação. Ou em um belo restaurante, à luz de velas,
ou em casa. Nesse caso, a preocupação é deixar tudo limpo, arrumado,
escolher uma boa música, criar um clima. Para receber minha mulher,
lembro
que comprei um macarrão aos quatro queijos em uma ótima rotisserie, e
tratei de criar a ambientação com velas e muitos bilhetinhos espalhados
pela casa, falando do que eu sentia, do que achava lindo nela, do que significava aquele momento. É uma coisa de que sempre gostei: surpreender. E toda mulher adora ser surpreendida.'

David 'Modéstia à parte, eu sei caprichar nesse momento. Lembro que a levei a um ótimo bistrô francês no East Village, em Nova York, escondidinho, charmoso, o lugar ideal para um casal começar um romance. Na semana anterior, eu havia ido lá com meus pais, para testar. Pedi salmão, já sabia que era uma especialidade, e não queria perder a chance de mostrar minhas habilidades com os talheres, as taças e o vinho. Aliás, o vinho eu levei, era francês. Ela ficou encantada. Acho que a gente consegue ganhar muitos pontos com um jantar bem planejado. Durante a conversa, eu pensava em como seria a vida dela no Brasil, até que ponto aquilo podia ter um final feliz? Depois, olhava para ela e ficava completamente hipnotizado, aqueles pensamentos não faziam sentido.'


' Espalho bilhetes pela casa, gosto de surpreendê-la ' - Leandro
O dia seguinte
  

 Mário,'Depois do primeiro encontro, fico 'viajando', a vontade de comer chocolate não passa. Meu primeiro impulso é telefonar, mas antes prefiro mandar um torpedo, para fechar com chave de ouro. O torpedo fica lá o dia todo, ela pode ler, rir, lembrar. Mas nunca digo 'eu te amo'. Lembro de algum detalhe do que falamos, ou envio uma imagem. De repente me pego fazendo planos, vejo minha liberdade mais reduzida, mas sempre concluo que vai valer a pena. E, engraçado, no dia seguinte eu me cuido mais, faço a barba com mais carinho. Penso: 'Mário, você se apaixonou, mas acho que ela também está louca por você'.'

Leandro 'O dia seguinte é a hora de flanar, saborear o prazer de ver um sonho realizado. Tenho a impressão de que todo mundo está sabendo o que estou pensando, que vão me perguntar: 'O que aconteceu?'. Não sou de falar da minha vida para os outros, mas, quando estou apaixonado, não consigo me controlar. Acabo contando tudo. Telefono para ela logo de manhã, pergunto como está, acho que quero ter certeza de que ela está sentindo o mesmo que eu. E aí vem a vontade de planejar mil coisas bacanas, passar dias se amando, viajando, conversando. Para outros homens, essa sensação pode acabar, mas, no meu caso, até hoje sinto tudo isso. Tanto que os bilhetinhos continuam a fazer parte da nossa vida. Em todo aniversário de casamento eu levo minha mulher até a igreja onde a gente se casou e trocamos de novo as alianças. É uma confirmação de que nosso sentimento continua o mesmo.'

David 'Deveria ser feriado no dia seguinte ao primeiro encontro com a mulher que a gente ama. Não tem condições de se concentrar. Mesmo chovendo, parecia que estava sol! Eu tinha vontade de falar com o motorista de táxi, contar o que estava acontecendo. Aquele perfume dela continuava na minha roupa e eu nem queria tomar banho por causa disso. Lembro que a gente ouviu Carlinhos Brown, eu me apaixonei pela música brasileira, e só queria tocar isso em casa. Logo veio o medo de que não seria possível ficar com uma brasileira que estava voltando para seu país, mas algo me dizia que era definitivo. Eu precisava investir naquele amor. E fui fundo. Depois de um ano e meio, deixei os Estados Unidos e vim morar com ela no Brasil. Não foi fácil, eu adorava Nova York, tinha uma vida estruturada lá. Foi a maior loucura de amor que fiz na vida.'
REPORTAGEM:MÁRIO CARIOCA (CENTRAL CONDE DE JORNALISMO)

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